Resenhando: Millenium
30 jan
Um destacado jornalista que estudou e desvendou segredos da extrema direita (fascistas e nazistas) de seu país: a Suécia. Ativista de esquerda durante décadas e designer gráfico da Tidningarnas Telegrambyrå, maior agência de notícias da Escandinávia.

Este é Stieg Larsson. Um grande homem que você provavelmente, e infelizmente, só deve ter ouvido falar mais de sete anos após sua morte.
Pelo menos foi assim comigo. E que boa surpresa tive ao saber que David Fincher nos trazia a adaptação de sua trilogia literária Millenium. Que, na verdade já existe numa versão local.
Mas a adaptação de Fincher carrega bastante de um clima “nórdico” à sua película, seja na identidade visual (acho até que o filme poderia ser rodado em preto e branco), nos personagens castigados não só pelo frio da região, mas por um passado (ou presente) cheio de dor e mágoa, normalmente varrida pra baixo de um tapete de aparências e bonança financeira.

Monocromático e frio. Assim como o filme.
Contracorrente está a protagonista Lisbeth. Com seus piercings, tatuagens, camisetas com palavrões (ah, ela fala muitos também) e traços absurdamente nórdicos (apesar de ser dos Estados Unidos), a atriz Rooney Mara dá muita vida e personalidade à uma jovem problemática que tem o perfil de um personagem fincheriano: contra os padrões da sociedade, atormentado pelas convenções sociais hipócritas e marcado pela violência. Lisbeth é tudo isso: aliada à sua sensualidade inusual, as cenas fortíssimas de violência a que se submete no filme criam laços fortíssimos com o espectador. Agora me lembro de uma entrevista em que o escritor brasileiro Marcelo Rubens Paiva fala da saudade que sente dos personagens que escreve em seus livros, e que isso o motiva a trabalhar sempre, para se manter perto deles. Creio que após assistir as mais de duas horas e meia de Os Homens que não Amavam as Mulheres você também sentirá o mesmo, nem que seja só por Lisbeth. Eu senti.

Lisbeth Salander
Se não com o mesmo impacto, Daniel Craig como Mikael Blomkvist faz bem o papel de jornalista que topa investigar um caso de desaparecimento de mais de quarenta anos numa rica família conservadora. Lisbeth é contratada para espionar Mikael, um modo de garantir um trabalho isento e seguro. Mas as diferenças de ambos não os impedem de trabalhar juntos. Muito pelo contrário.
O grande contraste do pseudo-casal também vai ao encontro de um elemento bastante presente na versão de Fincher: a colisão do novo com o velho. A tecnologia, grande ferramenta na solução do mistério, também serve de muro entre um país cheio de falso moralismo e preconceito com a novidade audaz e visceral, que é bem a cara do diretor.
Em suma, a primeira parte da trilogia Millenium é um filme de mistério com as pontas bem amarradas. Nem fácil demais, a ponto de ter um desfecho óbvio, nem complicado demais, vide Ilha do Medo, de Martin Scorcese. Uma trama envolvente que faz o longo tempo do filme nem ser sentido. Mas o que fica é a força dos personagens, das cenas agressivas, dos diálogos crus e de que esse filme é mesmo de David Fincher, um dos grandes nomes da atualidade. Deu até vontade de ver Clube da Luta mais uma vez.












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