Resenhando: Vikings – A viúva do inverno

21 Mar

Quando leio certas coisas, uma dúvida reaparece em minha cachola: os quadrinhos estão realmente uma droga ou certos artistas são mesmo muito bons? Bem, estou anos-luz de me considerar um especialista  no assunto ( ou em qualquer outro ), mas sinto ( no bolso ) que curto essa “mídia” mais do qualquer outra. Por exemplo, não me incomodo por não possuir o mais novo álbum do Metallica em CD, por isso baixei em torrent tenho o arquivo digital e só. Nunca me inclinei pro LPs antigos. CDs, então?  Duzentas mil caixetas de plástico que ocupam um espaço monstruoso.  Entretanto, mesmo com a facilidade da internet e com a economia de volume ( e dinheiro e papel ) ainda compro HQs físicas sempre que possível. Tenho uma edição do Thor em inglês de 30 anos ( isso mesmo. Um gibi quase 6 anos mais velho que eu mesmo ) e que considero meu objeto mais valioso. E mesmo agora, sem dinheiro para pagar a pinga da esquina regalias, ainda fui capaz de sangrar mais de vinte reais no encadernado ( capa mole ) do Vikings – A viúva do inverno ( Aliás, senhor Panini e outras editoras: caso queiram um review sobre algo que não temos acesso ou não conhecemos, pode mandar pra cá, ok? ).  Uma pena que a série Northlanders, escrita por Brian Wood tenha sido cancelada nos EUA e, mais cedo ainda, na revista Vertigo, que a Panini Comics lança no Brasil: um catadão de títulos da divisão adulta da DC Comics.

Acredito que Vikings seja uma tradução quase natural e bastante ilustrativa do que é  Northlanders, mas creio que este termo “empobreça” um pouco a obra como um todo.  Afinal, as obras de uma maneira geral englobam um pouco mais que este “povo” e esta cultura do norte europeu. Entretanto, o título encaixa-se bem na obra em questão. Ambientada no início do século XI, a estória conta a luta de uma mulher, Hilda, pela sobrevivência própria e de maneira especial de sua filha pequena. O pai da família ( esposo de Hilda ) morre vítima de uma terrível peste, que matava o doente em questão de poucos dias e era incurável. A moléstia que ameaçava toda a região parecia ser o destino de todos na pequena vila ( 700 moradores ) habitada por Hilda e sua família às margens do Rio Volga ( atual Rússia ). Então entra o personagem que dá movimento para toda a trama: o misterioso Boris. Com um falar refinado e conhecimentos científicos bem à frente de seu tempo ( em especial, de um povo de região tão inóspita ), Boris é um estranho forasteiro com uma ideia aparentemente insana: isolar os moradores da vila do contato com o mundo exterior até que a peste não seja mais um risco.

Boris

 

Além de não conhecer o conceito de microrganismos, os nativos se revoltam pelo fato da reclusão forçada cortar todos os suprimentos vindos do comércio, atividade que movimentava o pequeno vilarejo.  Somando-se a estes, também temos o fato do longo e terrível inverno russo estar no início quando a decisão de fechar os portões da cidade  deveriam ser tomados. Brian Wood usa deste plot interessante para formar personagens muito fortes, com diferentes e justificáveis motivações. Todo o ambiente e os possíveis conflitos são bem arranjados, dando às 196 páginas uma cara de mini-série da HBO ( pois é, não conseguia deixar de lembrar de Game of Thrones ). Elementos já clássicos na série marcam presença. Um dos mais fortes, os conflitos étnicos, estão presentes. Boris, o forasteiro culto, é claramente de uma outra cultura, de uma origem totalmente distinta a dos nativos da diminuta cidade que, apesar de ficar na atual Rússia, conserva todas as características de vila nórdica ( arquitetura, traços físicos, nomes ). O conflito entre o cristianismo institucionalizado e a religião pagã dos nórdicos também aparece discretamente, assim como outros traços de uma sociedade patriarcal e de tempos em que só o mais forte sobrevivia. E, falando em traços, o americano Leandro Fernandez contribui bastante com essa excelente obra com um trabalho bastante vivo e objetivo.

Enfim, um encadernado de Vikings é algo raríssimo ( tomara que venham mais com outras estória inéditas ) de sair. Também é raro o gênero medieval nas páginas das comics. Tomara que tenhamos mais. E, quem sabe, até uns flocos de neve para Odin neste começo/meio de ano. Afinal, se ele gastou tanto nas margens do Volga, um deus tão bacanudo não iria deixar seus fiéis tristes.

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2 Responses to “Resenhando: Vikings – A viúva do inverno”

  1. Jopz 21. Mar, 2012 at 9:24 am  (Quote)  (Reply) #

    bem escrito, mó capricho, kurti e deu vontade de conferir.

    JOPZ

  2. Vinicius 24. Mar, 2012 at 11:29 am  (Quote)  (Reply) #

    Citaram ela esses tempos no podcast do MRG, realmente deu uma baita vontade de ler, problema que preciso terminar de ler Hellblazer, Lúcifer e I Sell The Dead antes.

    De qualquer maneira, muito boa a resenha!

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