Resenhando: Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida

1 nov

Tentei ler Dom Casmurro duas vezes: uma no Ensino Médio (afinal, a consagrada obra de Machado de Assis é leitura obrigatória nas escolas) e outra antes de prestar vestibular. Falhei miseravelmente em ambas (tudo bem que na segunda tentativa nem tinha tempo pra isso mesmo…). Ler qualquer coisa com um pouco mais de extensão sempre foi um desafio pra mim, mas a situação tem mudado bastante. O mercado de literatura de entretenimento hoje é muito mais forte que à 10 ou 15 anos (muito se deve a fenômenos como Harry Potter e Senhor dos Anéis, sejamos justos) e os autores nacionais (que sempre existiram, é fato) tem agora mais força e apoio das grandes editoras.

Nesse mercado mais plural (não mais restrito a pequenos nichos) surgiu Eduardo Spohr, jornalista carioca que no seu título de estréia, A Batalha do Apocalipse, ganhou repercussão nacional e grandes vendas. Caso você não conheça, veja essa GIGANTE e espetacular resenha sobre o livro aqui.

O que podemos dizer de Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida? Bom, se você leu #ABdA e ficou com um gostinho de quero mais, aqui está o livro que vai atender suas expectativas.

Como já disse num post que fiz sobre o primeiro livro de Spohr (que não me lembro em que blog está, pra você ver como ando lesado) o autor escreve muito bem. Não só pensando em agradar o leitor, mas fazendo isso de forma a causar surpresas num roteiro muito bem construído, que consegue ser inovador e instigante não apenas aos novos leitores, como os que vieram de #ABdA. O universo de anjos, humanos, demônios, planos espirituais e muita ação é abordado de uma maneira um pouco mais detalhada e didática que no livro anterior.

Aos novatos, aí vai uma explicação bem superficial: baseado na cultura judaico-cristã (e com incontáveis outras referências, da cultura clássica à pop) o universo criado por Spohr se iniciou com Yaweh, o Criador, após ver que tudo era bom e supimpa, deixando a humanidade, a Terra e todo o resto do pacote aos cuidados dos anjos e foi bater um ronco de uns milhões de anos. Na verdade, de forma mais específica, aos cuidados dos arcanjos, celestes mais antigos e os únicos a conhecerem o Altíssimo “pessoalmente”, por assim dizer. Subordinados a esse pequeno e poderosíssimo grupo estão as diversas castas de seres alados, com os mais diversos poderes, personalidades e especificidades. Aqui, aliás, já reside uma das preciosidades da obra: os personagens celestiais complexos e que apesar de “humanizados”, com desejos e índole, são claramente diferentes dos humanos.

Como seres “imperfeitos”, suscetíveis ao desejo e ganância, lutas por poder e picuinhas políticas, os celestes sentem inveja da alma imortal da humanidade, coisa que eles não possuem. E na falta de alguém (leia-se Yaweh) que detenha a mente assassina dos arcanjos, os pobres humanos passaram por poucas e boas em suas mão penosas. Até que as preocupações celestiais seriam voltadas para suas próprias e sangrentas disputas.

Em Filhos do Éden vemos vários fragmentos deste fantástico universo muito bem colados, que nos dão uma impressão de grandiosidade e complexidade. Assim como em #ABdA, os curtos capítulos não dão ao leitor chance de se cansar ou de aborrecer com uma narrativa lenta ou carregada demais. Em volta da espinha principal do livro, em que vemos os eventos de uma das missões dos aliados do arcanjo Gabriel (que está em guerra com seu irmão mais velho e celestial mais poderoso de todos, Miguel) vemos outras estórias, em forma de flashbacks (à la Lost) que vão e voltam entre tempos remotos e cenários de importantes fatos recentes da humanidade para moldar o universo do livro e para melhor compor seus personagens, justificando suas ações ao longo da trama.

Diferente de Ablon, o grande herói de #ABdA, um dos principais personagens de Herdeiros de Atlântida, o querubim (anjo guerreiro) Denyel é uma mistura de Wolverine e Han Solo.

 

Mesmo mantendo seu estilo e falando de fatos  já conhecidos, o segundo livro de Spohr não é repetitivo, ou seja, fórmula que deu certo uma vez e é chupado reaproveitado em mais uma dúzia de livros, só para ganhar a grana da Editora Verus. Os flashbacks, por exemplo, são na minha opinião de merda usados com mais equilíbrio, deixando a leitura ainda mais ágil que em #ABdA e, como a trama principal não é algo tão grandioso quanto o fim do mundo, os problemas pessoais e o cenário acabaram sendo melhor explorados em Filhos do Éden. Um desses me chamou a atenção de maneira especial: os sentinelas, anjos mandados pelo próprio Criador para viver e “aconselhar” a humanidade recém criada, são uma classe angelical que não é citada em #ABdA, mas que rende passagens instigantes em Filhos do Éden (na verdade, tem outro personagem que mais me surpreendeu, mas citar aqui ficaria spoilerzento demais ;) ) e que servirão para dar continuidade à série (a próxima se chamará Anjos da Morte).

Primeiro Anjo, membro dos sentinelas.

 

E finalmente repito: Spohr escreve muito bem, e esse é o principal fator de seu sucesso. O trabalho exala esmero, cuidado e pesquisa. Nomes, endereços, descrições concisas e claras estão presentes por todo o texto. A facilidade para se expressar (sem abusar dos clichês) e uma trama que aproveita todos os elementos apresentados ao longo do livro constituem uma obra de entretenimento pra lá de competente.

2 respostas para “Resenhando: Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida”

  1. Bru 01. nov, 2011 em 11:12 am #

    Bom, eu acompanho o trabalho do Spohr desde que conheci o Nerdcast, que aliás tem dois episódios ótimos sobre as obras dele. Adorei A Batalha do Apocalipse, e to maluca pra ler Filhos do Éden.
    Como você disse ele escreve muito bem, e o melhor de tudo é que com o sucesso do Spohr os autores brasileiros de ficção estão conseguindo mais espaço. Temos vários escritores bons nessa área, e agora é a hora pro grande público poder conhecê-los. Que venham os próximos. :D

  2. Phyl 04. nov, 2011 em 10:52 am #

    Assim que eu puder, vou comprar os livros. Fiquei vidrado. o/

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