Resenhando – Games: Infamous 2

19 jun

Quando eu joguei DC Universe Online ano passado, tive uma certa noção de como um jogo, que é baseado nos super-heróis de uma das maiores editoras de histórias em quadrinhos, tinha uma visão tão estreita do que viria a ser “heroísmo”, embora pelo feeling da coisa era legal de se jogar, a riqueza da DC servia apenas como uma camada superficial, no fundo, o jogo se estendia a famosa fórmula dos MMOS: grind, xp, recompensa. Indiferente do inimigo, gastei horas esmurrando vilões e capangas e ai eu perguntei para mim mesmo, isso é heroísmo? O jogo não passava nenhuma satisfação de feitio heróico – ou vil, no caso dos jogadores vilões – e se olharmos para o passado editorial da DC, é possível encontrar o esforço de roteiristas para provar que super-heróis são muito mais que galos de rinha.

Vou pegar um exemplo: All-Star Superman, da dupla Grant Morrison e Frank Quietely, quase uma re-leitura dos doze trabalhos de Hércules, é finalmente nessa HQ que eu encontro uma perspectiva maior do que é “ser super”, Superman não apenas enfrenta vilões, mas também passa por tribulações mentais, participa de projetos humanistas, cura doenças e chega até criar vida, ou até mesmo o Batman, cujo o combatente do crime é apenas uma extensão da filantropia de Bruce Wayne.

Heroísmo, seguindo a risca o pai dos burros, significa: “Arrojo, coragem, magnanimidade, bravura que leva a praticar ações extraordinárias.” Heróico são os estudantes marchando em Vitória, blogueiras muçulmanas, os idosos japoneses que optaram pelo sacrifício em Fukushima, os bombeiros cariocas, que são mal pagos e condenados por um governante injusto e autoritário, quando adicionamos a palavra “super”, as coisas ganham proporções bem maiores, surreais.

(e se pensarmos, dependendo do super-herói, existe todo um lado táctil, como será o exercício de autocontrole de Kal-El ao apertar a mão de um reles humano?)

Voltando ao mundo dos games, tive a chance de jogar InFamous 2, a série, para quem não sabe, é baseada em um mundo sandbox, com uma liberdade de exploração a lá GTA, onde você controla Cole MacGrath, antes de adquirir super-poderes, Cole era apenas um cidadão comum, um jovem com problemas de namoro, um emprego ruim, sem grandes perspectivas na vida.

A grande sacada do jogo, de acordo com os desenvolvedores, é flexibilidade moral do jogo, após um incidente, Cole se torna super-poderoso, e em diversos momentos o jogador é confrontado sobre o emprego de suas habilidades: egoísmo ou solidariedade? Conflito ou diplomacia? Curar ou Matar?

Para o resenhista do site Gamespot, o sistema de escolha foi definido como um ponto fraco do produto “a laughable morality system” nas próprias palavras dele, eu compreendo que a moralidade seja uma questão complexa e relativa, que abrange muito mais áreas cinzentas do que podemos imaginar, mas não estou aqui para dissertar a fundo. O que resenhista não percebeu, é aquilo que Stan Lee cunhou em 1962, a famosa bússola moral do Homem Aranha, “com grande poderes vêm grandes responsabilidades” e é este feeling dos períodos mais clássicos do super-heroísmo (as famosas “Eras de Bronze e Prata”, que alias, inspiraram All-Star Superman!) que InFamous 2 resgata, estamos falando do famoso “preto e branco”, bom e mal no sentido mais maniqueísta possível.

E é essa noção de heroísmo que os produtores traduzem na jogabilidade, caso você queira um Cole heróico, você irá se deparar com missões envolvendo encontrar remédios, curar adoecidos, impedir bombas sujas ,assaltantes e em seu ato mais simbólico, levar energia para lugares abandonados e marginalizados, como um Prometeu contemporâneo.

Embora até agora eu esteja falando do aspecto clássico da moralidade no gênero super-heróico, InFamous 2 traz uma singela crítica à situação política estadunidense, o lugar se passa na fictícia “New Marais”, famosa por seus pântanos, mardi grãs e cozinha canjun, há alguns anos atrás, antes mesmo do início do primeiro jogo, New Marais foi atingida por uma inundação, deixando a cidade em estado de desordem.

Sim amigos, trata-se do episódio Katrina em 2005 que atingiu o estado de Nova Orleans, deixando a população desamparada e sem acesso as condições básicas de sobrevivência, um dos últimos capítulos da triste administração Bush, até hoje especula-se motivos de preconceito de base em relação a demora do socorro a população de Nova Orleans, sendo que o estado possui uma das maiores populações afro-americanas dos Estados Unidos.

É curioso pensar que eu vi pouquíssimos roteiristas de HQ exploraram esse episódio, se a memória não me falha, eu lembro de UMA edição do Pantera Negra em que ele viaja para Orleans junto com Luke Cage, vocês são livres para adicionar mais informações sobre esse fato na parte de comentários, para a não-existente e desolada New Marais, a chegada de Cole MacGrath representa novos horizontes, horizontes definidos pelo jogador.

Existem outras críticas, algumas esbarrando em spoilers – ou não – como a crítica ao pensamento puritano norte-americano, milícias racistas, o jornalismo tendencioso e sensacionalista da Fox News, a presença lucrativa de companhias militares privadas na economia mundial.

Estou terminando de jogar InFamous 2, claro, o jogo tem seus defeitos, ele é repetitivo em alguns padrões, a dificuldade costuma ter saltos visíveis, coisas que podem ofuscar o brilho de seu argumento para uma atenção menos centrada, mais ainda assim é um bom jogo e merece sua atenção.

Deixo aqui um questionamento, do mal da década passada, o vício pela desconstrução do gênero super-heróico, e quais frutos eles renderam além de traduzir a visceral apatia humana a histórias que há quase meio século se esforçam para passar uma mensagem positiva, afinal, conscientizar humanos deve ser um feito super-heróico, não?

Roberto Maia, conhecido na tweetesfera como @synthzoid, é colaborador ocasional do Zumblorg, com o mérito desse artigo ser o seu primeiro sem cenas explícitas de conteúdo pornográfico ou violento, trabalha com Publicidade e atualmente faz Pós-Graduação na ESPM, ama de paixão suas duas gatas, Misha e Julieta e não abre mão de uma boa zueira por nada nesse mundo.

7 respostas para “Resenhando – Games: Infamous 2”

  1. Leandro Leite 19. jun, 2011 em 7:51 pm #

    Essa resenha me lembrou Fable. A propostas desses jogos é interessante, oferecer liberdade moral para o jogador ser mocinho ou vilão. Mas na maioria das vezes é uma sequencias de escolhas óbvias entre uma coisa boa e outra ruim. Nem sempre na vida as coisas são assim, esse é um ponto fraco destes jogos que te dão dois caminhos bem claros a seguir. Seria interessante um game onde os acasos pudessem te levar a tomar atitudes boas ou ruins (como na vida, quando a gente acaba errando ou acertando sem necessariamente se escolha nossa).

    • Synthzoid 23. jun, 2011 em 2:15 pm #

      Oi Leandro, sim, embora exista uma flexibilidade moral em InFamous 2, as coisas ainda são definidas em momentos destintos.

      Interessante você citar o “acaso”, pouquíssimos jogos trabalham sob esta perspectiva, talvez seja um impasse, não existe o “acaso” da vida real em algo que em sua natureza, é programado por design inteligente.

  2. Diego 19. jun, 2011 em 9:36 pm #

    Primeiro dar os parabéns a um dos melhores (se não O melhor) post do Zumblorg em muito tempo! Queria ter mais tempo e paciência pra fazer coisas tão elaboradas e de qualidade com esta aqui.Sensacional!

    Roberto,tem uma edição do Thor (número 3) que mostra a volta do deus asagrdiano em que ele passa por new Orleans.Lá,ele revive um asgardiano (não darei spoiler) e enfia a porrada no Homem de Ferro.

    • Synthzoid 23. jun, 2011 em 2:16 pm #

      Agradeço os elogios, embora eu reconheça que tenho muito o que melhorar em minha escrita!

      Sim, me falaram desse episódio da HQ de Thor, eu tenho a edição da Panini e conferi! fico imaginando se existem mais? Nem mesmo selos mais adultos como a Vertigo exploraram bem esse episódio.

  3. Ju Lemos 20. jun, 2011 em 4:31 pm #

    Você escreveu sobre algo que não entendo muito e não conheço esses jogos, não que eu não jogue… jogo e gosto, porém não disponho de dim-dim para adquirir o meu proprio.

    Gosto de um bom Guitar-Hero, Doom e coisas dos generos, então vou ma abster de comentar sobre jogos que não conheçe

    Bjinho

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  1. Na Blogosfera - Uma Galáxia de Idéias pra você - 26. jun, 2011

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