Zumbis : entre ficção e realidade

22 set

Um artigo zumbi-científico de @ladygagazombie.

Hoje os zumbis estão no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Mas, afinal, existe fundamento para o mito dos zumbis? Por quais motivos esses seres levantam tanta curiosidade e temor?

Os primeiros filmes sobre zumbis contam da década de 30 e são bastante diferentes do que estamos acostumados hoje. Até então, essas criaturas não eram vistas como comedores de carne humana e estavam mais próximos da visão dos zumbis como seres humanos enfeitiçados e com propósito de trabalhos forçados, quase sempre. Em 1932, Bela Lugosi protagoniza o filme White Zombie, que traz a história de casal que passa férias em uma fazenda no Haiti e a bela jovem é vítima de um feiticeiro, para que sirva ao dono da fazenda como zumbi.

Já na década de 60, George Romero traz para o cinema os zumbis que estamos acostumados a ver. Não há uma explicação exata de como surgem a não ser pelo fato da influência radioativa. Transmitem para os humanos pela mordida, andam em grupos e só podem ser exterminados com a destruição do cérebro. A Noite dos mortos-vivos é o primeiro da série de três filmes que hoje são clássicos de George Romero. Depois são lançados Madrugada dos Mortos, em 1978, e Dia dos Mortos, em 1985.

Alguns leitores provavelmente ficariam espantados se soubessem que os zumbis constituem uma condição muito real e documentada, digna de análise pelos cientistas sociais. As pessoas identificadas como zumbis podem ser encontrados entre os habitantes do Haiti, um país pobre e politicamente instável no Caribe, com características culturais bastante específicas. Usando a lente do antropólogo, uma investigação sobre os zumbis no Haiti revela não apenas uma base para o fenômeno em si, mas também características básicas da sociedade haitiana possibilitam a manutenção na crença sobre os zumbis.

Dados indicam que os zumbis não são uma categoria curiosa de haitianos, mas são pessoas mentalmente doentes. Além disso, essa hipótese parece plausível em um país pobre como o Haiti, que oferece poucos cuidados institucionalizados, especialmente nas áreas rurais (FARMER, 1996, p.262). Com pouca ajuda disponível e  uma população na qual cada dia é uma luta pela sobrevivência, os doentes mentais podem vaguear pelas ruas e se tornarem algo, marginalizado, chamados de zumbis.

O segundo ponto importante para a compreensão deste fenômeno não diz respeito à incapacidade mental dos zumbis, o que parece claro a partir das evidências, mas a crença de que essas pessoas são reanimadas depois de mortas. Existem depoimentos de famílias que descrevem que “tudo parecia bem” com seus entes queridos, até uma “doença súbita e morte rápida,” de um jovem que “foi a um baile e caiu morto no chão”, ou a “bela e jovem filha de uma proeminente família que morreu na flor de sua juventude ” e foram vistos como zumbis, cinco anos depois (HURSTON, 1938, p.201, 203-204). Mais uma vez, uma revisão sistemática dos casos documentados revela semelhanças: Os zumbis são relativamente jovens, geralmente nos primeiros anos de suas vidas, morrem inesperadamente ou misteriosamente (ou por alguma doença desconhecida ou acidente estranho) e eles são reconhecidos pelos membros da família muito tempo após sua morte anunciada e sepultamento.

A relação entre zumbis e servidão é cada vez mais reveladora quando colocada no contexto da história do Haiti como uma colônia européia, permitindo assim a aplicação das idéias de Frantz Fanon (1963) sobre o dramático impacto da colonização no comportamento de uma população. O Haiti foi inicialmente ocupado pelos espanhóis como marco de suas expedições para as Índias Ocidentais e as Américas no final do século XV. Quando os franceses começaram a se estabelecer a ilha foi dividida e a parte ocidental ficou sob o domínio francês, nomeada colônia de Saint-Dominique. Os povos indígenas foram praticamente eliminados devido a maus-tratos e da doença, abrindo caminho para as grandes plantações. Nesse sentido, a própria necessidade de mão-de-obra para trabalhar nas grandes áreas cultivadas, em conjunto com as práticas e crenças religiosas da população gera o fenômeno que também conhecemos como zumbis: as pessoas eram “enfeitiçadas”, tomadas por artifícios que as deixavam como mortas. Logo após o sepultamento essas pessoas eram resgatadas dos seus túmulos e se tornariam escravas, permanentemente sob os efeitos de ervas ou elementos que as deixavam “como zumbis”, mas não inaptas para o trabalho forçado. Essa seria uma estratégia dos grandes donos de terras para obter mão-de-obra sem ter que pagar por elas. Isso explicaria também o fato de familiares terem reconhecido pessoas até então mortas, que caminhavam pelos campos ou ruas.

Quando lançamos um olhar antropológico sobre os zumbis no Haiti descobrimos algo completamente diferente das visões do cinema e cultura pop ocidental. O que percebemos pode ser descrito como as formas de loucura no comportamento dos zumbis, no esforço de luta com a vida de miséria do povo haitiano marcados pelas experiências da escravidão colonial e da exploração ou ainda baseado em crenças e experiências religiosas.

Não nos cabe aqui entrar mais profundamente no mérito da existência ou não, na atualidade, dos casos de zumbis acima mencionados no Haiti. Nosso propósito com essa pequena exposição é mostrar que o mito dos zumbis está muito além do que é veiculado pela mídia e pelas artes ou mesmo da idéia que fazemos do que é o zumbi. O tema certamente merece atenção e é digno de pesquisas amplas para entendermos o fascínio que essas criaturas exercem sobre o imaginário social contemporâneo.

Segundo Hertz (HERTZ, 1990, p.20) o corpo de um defunto não se considera como o cadáver de um animal qualquer, pois há que proporcionar os cuidados concretos e uma sepultura regular, não só como medida de higiene, mas por obrigação moral. A morte abre para os sobreviventes uma etapa lúgubre, durante a qual se impõem deveres especiais, qualquer que sejam seus sentimentos pessoais, se verão obrigados durante certo tempo a manifestar sua dor, trocando a cor de suas vestimentas e modificando seu jeito de vida habitual. Em definitivo, morte tem para a consciência social uma significação determinada, e constitui um objeto de representação coletiva.

Nesse sentido, surge o que é, a nosso ver, a principal problemática que o zumbi traz para a sociedade. O morto recebe um investimento muito grande, um dispendioso trabalho para que tanto a sociedade quanto o próprio morto se coloquem em suas novas posições: a sociedade perdeu um indivíduo e o morto não faz mais parte dessa sociedade. Após os ritos fúnebres se faz presente uma barreira que deveria ser intransponível tanto para os vivos quanto para os mortos. Os ritos fúnebres se encaixam no que os antropólogos chamam de ritos de passagem, que são culturalmente determinadas segundo os diferentes grupos sociais: assim como um bebê não é propriamente vivo, até passar pelos ritos de nascimento, um cadáver não é propriamente morto, até passar pelos ritos de sepultamento. É assim que cada pequena morte é seguida por um renascimento em nova condição. Esta transformação tem em seu período intermediário geralmente a representação de um risco: socialmente, o indivíduo não mais é o que era, mas também ainda não é o que será, após o fim dos ritos. Esta fase de indeterminação social foi percebida como delicada ou perigosa por vários autores, que a chamaram de margem (Arnold Van Gennep) ou liminar (Victor Turner).

Hertz denota a morte como fenômeno social e isso consiste em vê-la como um duplo e penoso trabalho de desagregação e sínteses mentais, que somente uma vez concluído, permite a sociedade, recobrada a paz, triunfar sobre a morte (HERTZ, 1990, p.102).

O sociólogo Norbert Elias traz algumas reflexões sobre a morte na obra A Solidão dos Moribundos. Nela, o autor sinaliza que a morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. Na verdade não é a morte, mas o conhecimento da morte que cria problemas para os seres humanos (ELIAS, 2001, p.10-11)

Idéias da morte e os rituais correspondentes tornam-se um aspecto da socialização. Idéias e ritos comuns unem pessoas; no caso de serem divergentes, separam grupos. Desse modo, analisamos que também o interesse da mídia sobre o fenômeno dos zumbis (aqueles que voltam dos seus túmulos por um motivo ou outro) só faz sentido dentro de um contexto específico da cultura ocidental contemporânea. Diversas culturas tratam de forma diferente essa ruptura com a morte, ou seja, esse problema que abala as estruturas da sociedade, mas somente a cultura ocidental traça determinados estereótipos para os zumbis, como, por exemplo, o fato de se alimentarem de carne humana pelo seu próprio instinto.

Concluímos que o tema está muito além de simples fantasia e realidade distante. Os zumbis podem ser estudados como fenômeno social face aos problemas levantados pelos tabus da morte, tanto na sua forma tradicional, como vistos no Haiti, ou como fenômeno da cultura de massa contemporânea, que se interessa cada vez mais sobre mortos que caminham sobre a terra.

Indicações bibliográficas

ELIAS, N. A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

FANON, F. The Wretched of the Earth. New York: Grove Press, 1963.

FARMER, P. On suffering and structural violence. Daedulus, 125: 1, 1996, p.261-283.

HURSTON, Z. N.. Tell My Horse. Philadelphia: J.B. Lippincott, 1938.

HERTZ, R. La muerte y la mano derecha. Madri: Alianza Editorial, 1990.

TURNER, V. W. O processo ritual. Petrópolis: Ed. Vozes, 1974.

VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 1978.

9 respostas para “Zumbis : entre ficção e realidade”

  1. Kurai 22. set, 2010 em 8:03 pm #

    Realmente os Haitianos estão entre a linha da vida e da morte, bem em cima do muro hauihuiahuihi

  2. Bruno Varela 22. set, 2010 em 8:19 pm #

    Nossa que artigo dez. Parabéns Zumblorg e @ladygagazombie o/

  3. Adriana 22. set, 2010 em 8:22 pm #

    eu vi um vídeo do fantastico falando sobre isso. Que louco…

  4. joexadrez 22. set, 2010 em 8:24 pm #

    Excelente artigo! Muito bem escrito e embasado.. O que vem sendo o diferencial do Zumblorg mesmo..

    Tinha lido sobre isso da cultura Haitiana e também há algumas comunidades africanas onde existe todo um folclore sobre zumbis e mortos vivos que vale a pena dar uma procurada!

    Enfim, muito bom o post mesmo! Que venham mais =P

  5. @FranckBeck 22. set, 2010 em 8:47 pm #

    Excelente! Ótimo post! Se ela não fosse um zumbi eu não teria que dizer… Mire na cabeça!

  6. Diego 22. set, 2010 em 9:12 pm #

    Ver um post com sete referências bibliográficas no Zumblorg significa uma coisa pra mim: Toma cuidado que teu emprego está em risco! haahahahahahha

    Falando sério,um post muito interessante que me fez pensar pela primeira no tema "Zumbis" com esse enfoque antroplógico.Parabéns,@ladygagazombie !!!

  7. @barangurte 23. set, 2010 em 7:03 am #

    sempre tive várias viagens zumbi-psico-socio-antropológicas [taí o Artur que não me deixa mentir]…

    acho que além de um movimento da internet e do cinema, a o tema zumbi está muito ligado a crenças culturais sobre a morte e também a dificuldade de aceitar essa passagem.

    e realmente, do ponto de vista acadêmico, acho que o fenômeno zumbi tem sido totalmente ignorado… embora tá (ainda) não existam zumbis, os zumbis sempre estiveram presente em diversas religiões, e em vez de serem superados como os outros icones místicos cada vez tomam mais força, agora na cultura pop.

    blablabla, eu me empolgo as vezes.

  8. Gi 23. set, 2010 em 10:53 am #

    Muito curioso e interessante esse artigo. Parabéns :)

  9. @Malquista 27. set, 2010 em 3:27 am #

    Acho que não foi uma evolução ruim!

    Só acho que a abordagem atual está sufocando sua raíz!!

    Poderiam sim ter bons filmes atualmente focando as duas ideias.

Deixe um comentário